Centro de Apoio ao Romeiro registra mais de 40% em inadimplência e acumula boxes vazios
Equipamento no centro de Juazeiro do Norte apresenta muitos espaços ociosos fora do período religioso, concorrência desleal e denúncias de irregularidades.
Reportagem: Cadú Silva

A Prefeitura de Juazeiro do Norte enfrenta grandes desafios para alavancar um dos espaços mais importantes para o turismo religioso no município: o Mercado Nossa Senhora das Graças, conhecido como Centro de Apoio ao Romeiro. O complexo, que comporta 1.040 boxes, apresenta uma baixa demanda durante o período não religioso. Dividido em dois pavilhões: o Padre Cícero e o Monsenhor Murilo, os números indicam que 474 boxes, o que corresponde a cerca de 45% do total, apresentam inadimplência ou atrasos no pagamento das taxas à prefeitura.
Mensalmente, o município cobra uma taxa de R$ 56,26 de cada licenciado, o que poderia gerar uma arrecadação de cerca de R$ 58 mil por mês, ou aproximadamente R$ 702 mil ao ano, caso todos os permissionários estivessem adimplentes. No entanto, segundo a Secretaria Municipal de Desenvolvimento Econômico, Turismo e Romaria (SEDETUR), foram arrecadados apenas R$ 128.646,49 durante todo ano de 2025. Já em 2026, a arrecadação registrada até o mês de setembro soma R$ 210.145,29. Os números surpreendem, pois em 2025, a prefeitura arrecadou apenas 18% do potencial anual do complexo. Em outras palavras, aproximadamente quatro em cada cinco reais da capacidade de arrecadação não chegaram aos cofres públicos.
De acordo com o secretário da SEDETUR, Wilson Soares, o centro comercial também passou a dar prejuízo para o município. Segundo o agente, o mercado tem cerca de R$ 20 mil em despesas mensais, nesse montante ainda não se enquadra a folha de pagamento dos funcionários contratados para manter o local, o que aumenta ainda mais a quantia. Os valores obtidos mensalmente quitam aproximadamente 35% das despesas, o que resulta em um aporte extra por parte da prefeitura durante todos os meses. “65% é o que a prefeitura tem que colocar de recurso extra para suprir essas despesas. Dentro da conta coberta pela prefeitura, entra a folha de pagamento dos funcionários além de energia, água e outros materiais”, afirmou o funcionário.
O labirinto
“Labirinto. Isso aqui é um labirinto”. São esses os termos utilizados por uma permissionária instalada no entorno dos pavilhões. Além das barreiras citadas anteriormente, outro impasse se perpetua cronicamente na rotina comercial dos permissionários. Conhecido como labirinto, a arquitetura dos corredores é um dos principais motivos responsáveis pelo esvaziamento do mercado. Segundo a comerciante, que preferiu não se identificar, o vazio e a infraestrutura do local amedrontam os visitantes. Além disso, a falta de segurança também é um dos impasses enfrentados pelos frequentadores. A permissionária também relata que, durante as chuvas, o espaço apresenta problemas de alagamento, o que agrava as dificuldades estruturais enfrentadas no local. “Faz medo de entrar aí. Porque, geralmente, é muito esquisito para entrar aí”, expressou a comerciante, apontando para um dos vagos corredores.
Fora do período religioso, o que ajuda a vendedora e outros feirantes durante a baixa temporada é conhecido como “Forró da Terceira Idade”. Uma festa que ocorre durante os finais de semana no entorno do mercado. Conhecida popularmente, o evento foca no entretenimento e no consumo de bebidas alcoólicas. “É fraco, fraco, fraco. Não tem muito a falar daqui não. A gente só ganha algum trocadinho aqui no dia do forró”, relata a comerciante.
Montanha-russa comercial
O que parecia uma solução econômica e estrutural para o município, transformou-se em uma periódica montanha-russa: durante as épocas de romaria, o entorno do mercado é tomado pelo amontoamento do comércio ambulante; mas, fora de época dos festejos religiosos, os poucos permissionários fixos dividem espaço com o vazio e a escassez de vendas. Embora os dados apontem cerca de 55% dos boxes regularizados, nem todos eles aparentam estar em funcionamento.
Dando uma volta pelo mercado, é possível perceber um esvaziamento na parte central do mesmo. A maior parte dos pontos comerciais abertos está nos arredores do complexo, enquanto o centro tampouco é ocupado. O que chama atenção, é que mesmo com muitas barracas desocupadas, centenas de camelôs ainda utilizam os corredores e o entorno do espaço para vender informalmente durante as romarias, o que resulta em uma superlotação nas áreas externas.
Segundo relatos, em épocas de turismo religioso, diversos ambulantes vêm de fora e pagam para ocupar o recinto de modo informal, instalando-se em pontos de maior destaque. “A gente fica aqui dentro. Os camelôs que vêm de fora ficam nos melhores lugares. Eles dão dinheiro aos fiscais, pagam e ficam no melhor lugar. Eles vendem, botam o dinheiro no bolso e vão embora. E a gente fica aqui. Isso é justo?” reclama uma comerciante, que optou pelo anonimato.
Para ela, a presença de alguns camelôs representa uma concorrência desleal aos permissionários. A vendedora relata que, enquanto os trabalhadores instalados nos boxes precisam acompanhar os preços praticados no mercado, os ambulantes que vêm de fora conseguem vender produtos por valores mais baixos e ocupar pontos de maior visibilidade. Como exemplo, cita o caso de mantas que vendia por R$ 20 a unidade, enquanto ambulantes comercializavam três peças por R$ 50. “Aí, acaba com o comércio da gente”, relata.
De acordo com Wilson Soares, secretário da SEDETUR, a maior parte dos comerciantes têm permissão de uso para atuarem dentro do mercado. No entanto, alguns permissionários desvirtuam essa finalidade, utilizando os boxes como depósito ou sublocando-os para terceiros por valores variáveis. Essa é a realidade de uma comerciante do setor de alimentação, que paga um aluguel informal para atuar no local: “A gente paga porque o box não é meu. Eu pago para trabalhar aqui”, relata a vendedora. Contudo, o secretário reforça que a prática é ilegal, ressaltando que não há autorização para a transferência das permissões de uso.
Segundo o agente, até em época de romaria alguns boxes se encontram fechados devido a estrutura do recinto, apontando a falta de segurança como motivo desses acontecimentos. “Tem risco, realmente tem risco. É um ambiente que traz insegurança por conta dos seus labirintos. Aí essas pessoas que têm autorização para começar a realizarem dentro do mercado, vão começar a realizar na praça”.
Duas décadas de espera
A proposta original do Centro de Apoio ao Romeiro previa retirar os camelôs e ambulantes das ruas ao redor da Basílica Nossa Senhora das Dores e acomodá-los em um espaço planejado, visando melhorar o acolhimento do romeiro e organizar a economia popular da cidade. Além de servir como principal referência de apoio e acolhimento aos turistas da cidade.
Com as obras iniciadas nos anos 1990, o complexo teve em torno de R$ 16 a 20 milhões movimentados em valores históricos entre repasses, contratos e estimativas de conclusão. Em mais de duas décadas, o montante foi repassado em períodos diferentes. De início, auditorias estaduais comprovam um repasse de R$ 8,19 milhões em convênios firmados em 2005 e 2006 para o anfiteatro e a praça do local.
A esse valor soma-se um contrato de R$ 7,8 milhões, que após uma paralisação, retomou em 2009 a construção de alguns boxes. Ademais, segundo o Diário do Nordeste, estimavam-se mais R$ 12 milhões para a conclusão total do centro multiuso. Além disso, o empreendimento carrega um rastro de R$ 1,65 milhões em reprovação de contas, classificado em situação de irregularidade oficial. A construção virou alvo de Tomadas de Contas Especial pela Controladoria-Geral do Estado.
Após tantos impasses, dezenas de milhões em investimentos públicos e um histórico de irregularidades, o Centro de Apoio ao Romeiro consolida-se como um complexo paradoxo para Juazeiro do Norte. Idealizado para ser a solução definitiva no ordenamento do comércio turístico, o equipamento hoje opera no vermelho, refém de falhas arquitetônicas severas e de um modelo que não consegue conter a evasão, a inadimplência e a sublocação ilegal.
Embora a administração municipal reconheça a urgência de uma requalificação estrutural para dar vida e segurança ao espaço fora da temporada de romarias, a dependência de recursos coloca o futuro do mercado em um horizonte incerto.
Segundo o secretário Wilson Soares, a prefeitura pretende captar recursos para reformar o equipamento. O principal foco é trazer movimentação fora do período religioso e também, captar os permissionários que ocupam as ruas de Juazeiro nos períodos de romaria. Todavia, o servidor afirma que sem financiamento externos, se torna cada vez mais difícil realizar um projeto como esses, visando possíveis parcerias com o Estado do Ceará e com o Ministério de Turismo. “Então, com toda essa dificuldade, é difícil a gente pegar só a arrecadação do município e conseguir entregar algo que realmente sirva para a população que usufruir”, relata o agente.
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