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Com quase R$ 5 milhões em investimentos públicos, Parque das Timbaúbas apresenta constante degradação ambiental

Foto do escritor: datajorcariri
datajorcariri
27 de jul.
5 min de leitura

Atualizado: 4 de ago.

O DataJor Cariri percorreu a principal área verde de Juazeiro do Norte e constatou os diversos problemas que afetam a fauna, a flora e traz reflexos para quem frequenta a área


Por: Cadú Silva


Foto: Cadú Silva
Foto: Cadú Silva


Resíduos dividem espaços com animais, esgoto é despejado a céu aberto em lagoas naturais, o mau cheiro e o abandono passaram a compor a rotina do Parque Ecológico das Timbaúbas, localizado em Juazeiro do Norte. Embora seja a única área verde no meio urbano do município, seu interior apresenta diversos problemas ecológicos, um dilema que passou a ser rotineiro desde sua criação.


Em 2018, as gestões estadual e municipal uniram esforços para melhorar o parque. Conforme a planilha orçamentária do projeto de revitalização, o valor total estimado para as intervenções era de R$ 3.882.637,84, porém, a Secretaria do Meio Ambiente do Ceará (SEMA) destinou apenas R$ 2.867.163,04 para a requalificação da infraestrutura básica e segurança. Esse planejamento estadual incluía a instalação de mais de 2,5 mil metros de gradil no perímetro, reforma do prédio administrativo, novos banheiros e vestiários, iluminação, parquinho e academia ao ar livre.


Paralelamente, a Prefeitura de Juazeiro do Norte aportou R$ 724.824,26 focados na mobilidade interna, recurso que foi carimbado para a pavimentação de novas pistas de corrida e caminhada em concreto armado e na criação de um circuito menor de lazer ao lado de suas quadras esportivas.


Ambas as reformas possuíam o prazo de 1 ano e 6 meses, previstas para serem entregues em junho de 2019. Porém, devido a diversos aditivos de prazo, com a justificativa de atrasos de pagamentos, revisões de orçamentos e o início da pandemia de Covid-19, as obras somente foram concluídas em junho de 2021.


Promessa antiga


Outras obras já estavam sendo realizadas antes desses investimentos, como a construção da piscina semi-olímpica, que foi concluída em 2024, após 11 anos desde o início da primeira licitação. Em 2013, a construção da piscina recebeu o valor de R$ 610.404,98, com prazo de 6 meses para conclusão, entretanto, a obra foi paralisada devido a trâmites internos. 


Em 2021, com o valor adicional de R$ 545.157,70, a reforma foi retomada, com o prazo de 180 dias. O prazo de duração da obra foi prorrogado outras diversas vezes, além disso, em 2022 mais R$ 111.611,38 foram incluídos na conta da reforma. Somados estes valores, a construção da piscina consumiu R$ 1.267.174,06 dos cofres públicos. 



Totalizados os valores das revitalizações e da construção da piscina, o parque recebeu R$ 4,8 milhões em investimentos. Apesar desse valor, a área ainda continua com problemas estruturais significativos.


Segundo o gerente do ecoparque, Eduardo Aguiar, um dos motivos que contribuíram para a degradação de algumas estruturas foi o vandalismo enfrentado pela reserva, consequência da falha de segurança no espaço. Ele afirma que diversos materiais foram furtados de suas instalações, o que acabou contribuindo para o abandono. “A gente sabe que segurança pública é a dor de cabeça de todo o campo. Quando a gente dá as costas, acontece”, relata o agente. 


Ao caminhar pelo Parque Ecológico, a realidade da infraestrutura descredibiliza qualquer promessa oficial de preservação ambiental. A degradação salta aos olhos: alguns trechos operam na escuridão por falta de iluminação, construções abandonadas acumulam mato e o lixo é descartado livremente em meio à área verde e às lagoas.


A falta de segurança também é um dos principais dilemas enfrentados pela população, principalmente à noite: “Depois de oito horas aqui, não tem mais nada, só os carros passando”, é o que relata Ana Flávia Guedes, atendente de telemarketing, que brincava com o filho de 2 anos em uma das áreas da reserva. Ana também comenta que sente a ausência de fiscalização, que poderia evitar o despejo irregular de lixo. “As pessoas trazem lixo de outros lugares. Como eu já vi, tem gente que vem caminhar, traz a sacolinha e joga lá”.


Reflexos do descaso


A consequência do abandono ficou nítida em abril deste ano, quando dezenas de peixes foram encontrados mortos em um córrego localizado nas extremidades do parque. A água, que também apresentou a presença de metais pesados, segundo a inspeção realizada pelo Ministério Público do Ceará (MPCE), é imprópria para banho e para atividades de consumo, como a pesca.


Conforme a Autarquia Municipal de Meio Ambiente de Juazeiro do Norte (Amaju), o principal motivo da contaminação é o descarte irregular de esgotos nas duas lagoas que se convergem na área de preservação, oriundos de redes clandestinas nos bairros em seu entorno.


Devido à mortandade dos peixes, o MPCE realizou uma inspeção no parque junto de outros órgãos ambientais para entender o acontecimento. Eduardo Aguiar, gerente da reserva, declarou que o órgão está no aguardo de amostras coletadas pela Amaju para “tomar a decisão” do que pode ser feito: “Eles (MCPE) vão tomar as providências para saber, de fato, de onde veio esse material para a laguna”.


Com tantos danos ambientais ocorrendo na reserva, Eduardo Aguiar revela que possui planos futuros para melhorar o parque, sendo a retirada do esgoto uma de suas principais metas. Ademais, o gestor público também gostaria que fosse realizada uma nova reforma, além da implantação de um sistema de segurança próprio.


Contudo, a execução dessas melhorias esbarra na limitação orçamentária: o parque não detém recursos próprios, dependendo exclusivamente das verbas repassadas pela Secretaria do Meio Ambiente por meio do Fundo Geral do Município. Segundo Eduardo, o montante enviado atualmente cobre apenas demandas básicas de manutenção diária, como limpezas e pequenos reparos. Questionado se a quantia é suficiente para sustentar e investir em grandes intervenções estruturais na reserva, o gestor responde categoricamente que "não". 


O descaso com o Parque das Timbaúbas, no entanto, não é recente e ultrapassa diferentes administrações municipais. Para além do desastre ecológico, especialistas alertam que a situação se transformou em uma ameaça invisível e direta à população. 


O biólogo Léo Azevedo adverte que o despejo clandestino de esgoto afeta diretamente quem frequenta o local. Ele destaca o risco iminente de contaminação em cadeia, visto que a atividade humana na reserva continua sem controle: “Qualquer dia da semana que a gente for, vão ter pessoas tomando banho e pescando, o que ainda é pior. Tem pessoas que estão se alimentando de animais que estão contaminados. A gente não sabe que tipo de contaminação ou parasitismo tem nesses animais, e que tipo de prejuízo isso pode causar na saúde pública”, conclui o biólogo.


Além do mais, o biologista ressalta a importância de manter a preservação do parque com um plano de manejo adequado para evitar qualquer dano à fauna e à flora local, uma vez que, por se tratar da única área verde de preservação no meio urbano da cidade, o espaço exerce uma função essencial para a qualidade ambiental e para a manutenção dos ecossistemas locais. 


O DataJor Cariri é um projeto de extensão da Universidade Federal do Cariri (UFCA). Os conteúdos podem ser utilizados ou reproduzidos com o devido crédito.


 
 
 

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